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Estro

Estro do meu ego guarda o que sou: poemas. contos, pensamentos, artes plásticas, fotografias, produtos do meu sentir.

Estro

Estro do meu ego guarda o que sou: poemas. contos, pensamentos, artes plásticas, fotografias, produtos do meu sentir.

Livro de Poesia: Achas de um Vagabundo - Aqui

Gil Saraiva
17
Jan20

Aqui.jpg

"AQUI..."

 

Aqui,

Onde a palavra mais se afirma

Como produto social,

A faculdade última

De comunicarmos

Por meio de sinais

Que todos entendemos,

Porque são próprios

Desta comunidade

Que constituímos...

 

Aqui,

Onde a fala

Se traduz na escrita

Como um ato de utilização

De uma linguagem,

E porque não,

Como a concretização

Do potencial da língua

Passada à palavra...

 

Aqui,

Falamos...

Escrevemos...

Sentimentos em sinais,

Próprios do grupo

Que constituímos...

 

Aqui

Traduzimos estados da alma

Em discursos originais,

Vivos e criativos,

Através de combinações livres

Do que somos, sentimos,

Queremos, desejamos

E em última análise

Sonhamos...

 

Aqui...

Somos,

Nas palavras,

Verdadeiras metáforas

Do que queremos ser...

Configurações tacitamente

Assumidas pela líbido...

 

Aqui...

Inventamos verdades inequívocas

Provocadas pelo efeito do écran,

Como se da nossa própria visão

Se tratasse...

E nos lugares comuns

Desta linguagem

Afirmamos o grito

Da nossa solidão...

 

Aqui

Queremos existir

Em felicidade!...

Pura,

Simples,

Essencial...

 

Aqui

Conseguimos entender

E produzir

Um número infinito de frases

Que nunca antes lemos,

Ouvimos ou pronunciamos...

E porquê?

Porque estamos integrados!...

 

Aqui...

Somos parte de um todo

Que funciona sem conhecimento

De todas as partes,

Aparentemente anárquico,

Mas obviamente

Interligado a esquemas

Que apenas o nosso subconsciente

Consegue interpretar...

Enfim...

 

Aqui...

Somos os filhos

De uma mesma alcateia

E ao uivarmos,

Não estamos apenas a venerar a Lua

Que se encontra cheia...

Mas a dizer também aqui

Que queremos amar!...

 

Gil Saraiva

Livro de Poesia: Achas de um Vagabundo - Música

Gil Saraiva
16
Jan20

Música.jpg

"MÚSICA"

 

A música tem o espaço invadido

De ternas melodias...

 

No bar,

A tela sem som,

Transmite ilusões

De novelas sem fim...

 

A cena,

Com contornes de virtualidade,

Faz-me ver-te ali...

Do outro lado do bar,

Na penumbra das luzes

Em perpétua difusão...

 

Ali...

Nessas formas

Desse corpo que sonho;

Nas margens desse teu cabelo,

Onde os meus dedos anseiam

Perder-se um dia mais...

 

Procuro,

Com ânsia adolescente,

O teu olhar,

Profundo...

Oculto...

Magnífico...

E sinto-o no sorriso

Desses lábios

Que Mona Lisa invejaria ter...

 

Porque não falas?

A espera

É como um incêndio de floresta...

Consome tudo em seu redor...

Devora o íntimo do ser e...

Mesmo assim...

É divino o prazer

Da ansiedade...

 

A música

Tem o espaço invadido

Do teu ser...

E a tela,

Sem som,

O sorriso mudo dos teus olhos!

 

A cena faz-me imaginar

Contornes de impossível...

E na penumbra das luzes

O sonho aparenta

Um perpétuo devir...

 

Gil Saraiva

Livro de Poesia: Achas de um Vagabundo - Vagabundo das Sombras

Gil Saraiva
15
Jan20

Vagabundo das Sombras.jpg

"Vagabundo das Sombras"

 

Vagabundo das sombras,

Dos Limbos,

Haragano, O Etéreo,

Perdido em sonhos que não meus,

Senhor da Bruma esquecido

Nos recantos esconsos dos céus...

 

Procuro, procuro no crepúsculo,

Encontrar a arma branca

Que me assassine a saudade

De dias de sorriso

E noites de prazer...

 

Vagabundo Dos Limbos,

Haragano, O Etéreo,

Senhor da Bruma,

Na net perdido entre circuitos

Onde os sentimentos

São palavras sem cheiro

E a caricia não tem o sentir da derme,

Suave, humana, apetecida...

 

Vagabundo de mim

Que não encontro

A cristalina razão

De meu existir...

 

Haragano da net,

Etéreo na viagem,

Crisálida serei

Num casulo chamado internet...

 

Senhor da Bruma,

Soberano oculto que busca, insano,

Um reino chamado de Amor.

 

Gil Saraiva

Livro de Poesia: Achas de um Vagabundo - Haragano, o Etéreo

Gil Saraiva
14
Jan20

Haragano.jpg

"Haragano, O Etéreo, um Senhor da Bruma"

 (A HISTÓRIA...)

 

Ao princípio

Senti-me como que um desaparecido...

 

Não em combate,

Como certos militares em terra estranha...

 

Não no triângulo das Bermudas,

Como reza a história de muitos navios

Perdidos na Bruma...

 

Não em pleno ar,

Como se fosse um avião

Engolido pela própria atmosfera

Algures entre nuvem e bruma...

 

Não! Nada disso! Desaparecido de mim...

Sem identidade... Sem existência...

Sem referências... Sem sentido de viver...

Sem imagens claras, perdido na bruma...

 

Imagine-se a montanha!

Grande! Monstruosamente grande!

Gigante mesmo

Elevando-se na planície!

 

Isso fui eu,

O eu Narciso antes da primeira queda,

Antes do começo das erosões...

Seguidas, repetidamente insistentes,

Continuadas no tempo e na vida...

 

Isso fui eu,

Antes dos abalos, dos sismos,

Dos terramotos sem fim

Num mundo feito de sobrevivência

Mais que de essência!

Isso fui eu, antes da bruma...

 

E a montanha foi perdendo forma,

Volume, dimensão...

Até se confundir na planície amorfa

Da multidão sem rosto,

Sem esperança,

Sem dignidade

E sem amor próprio...

 

Aparentemente,

Eu tinha desaparecido,

Sem que um vestígio de sobrevivência

Servisse de pista

Para uma busca por mim mesmo...

 

Imagine-se um desastre

Num qualquer ponto isolado do globo,

Onde um hipotético sortudo

Salvo da morte pelo acaso,

Irremediavelmente ferido,

Acabasse por ficar

Virtualmente irreconhecível

Perante a exposição ao tempo

E às depredações dos animais

E da própria natureza...

 

Isso era eu!

Perdido de mim e dos meus...

Desaparecido do mapa

Dos humanos com voz própria!

 

Ao princípio

Foi assim que me senti.

 

Depois, dei conta que vagueava

Sem destino ou rota certa...

Algures entre nenhures,

Um ser disforme,

Parco de alma e existir...

 

Durante momentos que pareceram anos,

Durante anos que não tiveram momentos,

Apenas procurei, não sei o quê...

Não sei porquê...

E não sei como...

 

Quando finalmente dei por mim,

Não passava de um vagabundo,

Perdido de si em busca do ser...

 

Era como se os locais,

Por onde a minha sombra

Me garantia a existência,

Fossem nuvens sem forma,

Estradas sem referências,

Caminhos sem lei...

Brumas sem paisagens...

 

Apenas limbos...

Apenas Éter...

Apenas Bruma...

 

Às vezes sentia

Que estava numa grande teia,

Cheia de predadores,

Plena de vítimas,

Ávida de sentidos e sentimentos...

 

Uma teia universal que me envolvia

Como uma rede escura e semieléctrica...

 

Descobri, aos poucos,

Que tinha sido absorvido pela internet

E que me tornara

Num Vagabundo Dos Limbos,

Em Haragano, O Etéreo,

No Senhor da Bruma,

Numa Lenda Urbana

De quem nunca ninguém ouviu falar,

Num Senhor dos Tempos

Sem tempo para si mesmo...

 

Um Sir, à inglesa, polido na forma,

Vazio no íntimo de si próprio,

Repleto de vontade e de reconstrução...

 

Um Vagabundo Dos Limbos,

Haragano, O Etéreo,

Senhor da Bruma,

Em busca da identidade esquecida

Num passado sem memória...

 

Até que renasci,

Gritando aos cinco ventos

A minha alvorada...

Vento de ser,

Vento de existir,

Vento de viver,

Vento de sentir,

Vento de amar...

 

De novo era gente,

Uma criatura nova,

Não na idade que essa

Não deixa Cronos em cuidados,

Mas na vida.

 

Eu era...

Eu sou, esse Sir,

O Vagabundo Dos Limbos...

Haragano, O Etéreo...

Senhor da Bruma...

Pela rede universal transmitindo

A história de uma alma

Que aos poucos fui reconstruindo,

Sem vaidade, sem orgulho,

Sem a certeza sequer de ser ouvido...

 

Porém... com a esperança

De que ao falar globalmente

Para este universo imenso,

Possa um dia agir localmente

Na alma de um ser que como eu

Se sinta desaparecido a dada altura...

 

Assino, como me conhecem:

Sir, Vagabundo Dos Limbos,

Haragano, O Etéreo...

Senhor da Bruma...

 

Gil Saraiva

Livro de Poesia: Achas de um Vagabundo - Introdução

Gil Saraiva
13
Jan20

Achas para um Vagabundo.jpg

Introdução

Decorria o ano de 2003, já lá vai um longo tempo, quando este livro foi pela primeira vez alinhavado. Nem todos os poemas aqui incluídos datam exatamente dessa altura exata, alguns deles tiveram origem nos primeiros anos do terceiro milénio, não porque essa mudança fosse a mais importante, nada disso, apenas porque coincidiu com o meu primeiro divórcio, depois de um casamento de 17 anos, uma filha, um filho e uma vivência ímpar e indescritível na história deste que vos escreve.

Foram anos muito felizes na minha vida, feitos de grandes vitórias, momentos amargos, lutas titânicas e episódios de paixão deveras arrebatadores. Porém, se o amor se extingue de um dos lados do casal, e passa, quase sem se dar por isso, a apelidar de rotina ou status quo, é sinal de que algo chegou ao fim, por muito que uma das partes não o considere.

A nova batalha, nos anos seguintes, gerou uma enorme revolução dentro de mim. De súbito, sem estar preparado, tinha de reaprender a viver sozinho, era necessário mudar de terra, de trabalho, de vida enfim. Tudo para conseguir sobreviver com a sanidade o mais intacta possível, sem estar sempre a recordar o que, ao tempo, não precisava mesmo de ser relembrado, para que o meu ego evitasse cair em depressão ou até em algo mais sinistro. Era necessária uma dose de otimismo, de bom humor e da procura de um novo rumo. Foi o que fiz.

Gil Saraiva

ESTRO: A Inspiração Poética de Quem dá Voz ao Eco dos Sentidos...

Gil Saraiva
12
Jan20

07.JPG

Serve o presente post para agradecer aos mais de 500 visitantes que nestes 2 meses de existência do ESTRO aqui vieram ler os versos que escrevo. Sem leitores o poeta sobrevive, não vive. 

A todos o meu reconhecido obrigado.

Gil Saraiva

Livro de Poesia: O Próximo Homem II - Vem

Gil Saraiva
12
Jan20

Vem.jpg

"VEM"

 

Vem...

Extraterrestre que o céu

Ao Homem te entregou

Porque as fábulas não servem pra sonhar!

 

Vem...

Fantasma que a casa

Ao anoitecer expulsou

Porque as fábulas não são para assustar!

 

Vem...

Sereia que o mar

Um dia rejeitou

Porque as fábulas não sabem nadar!

 

Vem...

Lobisomem que a Lua

Uma noite abandonou

Porque as fábulas não vivem ao luar!

 

Vem...

Abominável Homem que a neve

Uma manhã desmascarou

Porque as fábulas não sabem hibernar!

 

Vem...

Vampiro que a noite

Ao nascer da aurora atraiçoou

Porque as fábulas não vivem a sangrar!

 

Vem...

Loch Ness que o lago

Da eterna neblina se acabou

Porque as fábulas também têm de acabar!

 

Vem...

Conto de fadas, mito, animação,

Mistério oculto no fundo mais profundo,

Bruxedo, animal, pré-histórico, ladrão,

Mágico, mago, astronauta em novo mundo...

 

Vem...

Venham... bruxa, fada, feiticeira, anjo,

E porque não um pouco de diabo,

Adamastor nas dobras de outro cabo!

 

Vem...

E sejas conto, fábula, ou página de história,

Ou auto da derrota ou da vitória,

Mito, religião, Bíblia, mentira,

Credo, cruzes e um pouco mais de fé...

 

Vem...

Venham encher com tudo isto esta minha alma

Que ficou cega, vazia, nua,

Abandonada...

E quer poder sonhar

E ser amada

Mesmo que o preço seja não ser nada!

 

Vem...

Porque as fábulas não servem pra sonhar!

Porque as fábulas também têm de acabar!

 

Gil Saraiva

 

 

Livro de Poesia: O Próximo Homem II - Tian An Men

Gil Saraiva
11
Jan20

Tiananmen.jpg

"TIEN AN MEN"

(AS VINDIMAS DE JUNHO)

 

Cantam as vindimas os Podadores,

Cantam na Praça de Tien An Men...

 

Vindimas de junho

Onde uvas, aos cachos,

Aguardam a poda...

E há quem as ouça... parecem gritar:

"- Queremos Liberdade! Democracia...

E embora com medo queremos Liberdade!

Não vamos fugir,

Somos milhares pedindo uma voz,

E apenas uma,

Hoje e aqui em Tien An Men,

No lar da Paz Celestial...

Tien An Men, Tien An Men,

Pedimos apenas o que é natural!..."

 

Fazem chacinas os Caçadores,

Caçam na Praça de Tien An Men...

 

Chacinas de junho

De foice e martelo, de gás e de bala,

De bomba e canhão, de tanques estanques,

Ceifam-se estudantes...

 

Morrem às dezenas, centenas, milhares,

Qual carne picada triturada a aço;

Não sobra pedaço...

No lagar de horrores o mosto já fede!...

 

E choram as vítimas dos Podadores

Choram na Praça de Tien An Men...

 

Vítimas de Junho...

Só os mortos cantam, num descanso ameno,

Na Praça da Paz Celestial...

Vítimas do medo, que o Poder tremeu,

Vítimas tão cedo de quem não cedeu...

Mortos, mais mortos e outros ainda

Que em Tien An Men

Pra sempre ficaram...

E só porque ousaram pedir Liberdade

Pra poder falar e ouvir e ler,

E poder escolher

Entre concordar e não concordar...

 

E contam as vítimas os Ditadores

Contam na Praça de Tien An Men

 

Um, dois, três, cem, mil, e mais e mais...

Aumentam os corpos ceifados a esmo:

Mulheres, homens, velhos, crianças,

Dois mil, três mil...

Vale mais não somar,

Esquecer os totais...

Que em Tien An Men,

A praça da Paz Celestial,

Nasceu um Inferno feito por mil Dantes...

O Verão foi Inverno... morreram estudantes...

 

E cantam os Anjos num coro de dor

Cantam as Almas de Tien An Men...

 

E a China já chora

O chão decorado de ossos e tripas,

De músculos rasgados,

Banhados no sangue de um mar de mártires:

Um novo Austerlitz!...

No tocar dos extremos

O sangue é fusão...

 

Cantam as vítimas os Podadores

Tomara que só em Tien An Men...

 

Tomara também que no Luso Ocidente,

Vindimas não hajam

Nos meses errados...

 

Cantam as vítimas os Podadores

Tomara que só em Tien An Men...

 

Vítimas de Junho...

Pisaram-se as uvas e embora verdes

Um mosto vermelho encheu o lagar

- Tien An Men... Tien An Men...

Os bagos esmagados parecem falar...

 

E cantam as vítimas os Podadores

Tomara que seja o Canto dos Cisnes...

 

Gil Saraiva

Livro de Poesia: O Próximo Homem II - Chorai...

Gil Saraiva
10
Jan20

Chorai.jpg

"CHORAI"

 

Chorai...

Chorai comigo os filhos das Trevas...

 

Aqueles que chutam a bola

Apocalíptica dos sonhos sem prazer...

Aqueles a quem a vida disse, um dia,

Pra sofrerem as torturas da agulha;

A doce sensação do não sentir;

E o ventre seco e frio da própria

Morte...

 

Chorai...

Chorai comigo os filhos das Trevas...

 

 

Aqueles que veneram a miragem negra,

Heroína suprema dos homens

Sem rosto, sem nome

E sem força de vontade

Ou sem amor...

 

Chorai...

Chorai comigo os filhos das Trevas...

 

Porque deles é o reino da vida

Sem Futuro,

Porque neles tudo é estéril,

Seco e sem sentido;

Porque eles são o espelho mais triste

Do Inferno.

 

Chorai...

Chorai comigo os filhos das Trevas...

 

Porque entre eles passeia a Negra Dama,

Plena de clientes, satisfeita...

Porque de Tchernobil já estão vacinados...

Porque oxigénio, Amazonas e ozono,

São coisas supérfluas, palavras soltas,

Num mundo que deixaram já faz tempo...

Porque a SIDA é apenas um atalho,

Não um mal, apenas e somente

O caminho mais curto para quem

Já não tem tempo...

 

Chorai...

Chorai comigo os filhos das Trevas...

 

Lagartas fechadas num casulo

Selado nas veias, ocas de sangue,

Plenas de vício e de tristeza...

Crisálidas, uns insetos humanos

Que nunca serão gente;

Vazios de esperança, carentes de voz...

Seres de asas queimadas

Que jamais voarão rumo à liberdade;

Que jamais sentirão o cheiro das flores,

O gosto, o gozo de voar, ser borboleta...

 

Chorai...

Chorai comigo os filhos das Trevas...

 

Chorai lágrimas de amigo, irmão, de primo

Ou filho até...

 

Chorai os que odeiam, agora, a luz

do Astro Rei...

 

Chorai os corpos vivos

A quem a mente abandonou...

 

Chorai aqueles que andam à procura

Da alma que não sabem encontrar...

 

Chorai...

Chorai comigo os filhos das Trevas...

 

Chorai também aqueles olhos parados...

Deus…!!!

Aqueles olhos parados de quem já foi criança,

De quem era tão engraçadinho

Nos primeiros sorrisos... lembram...?

E quando, um dia, ele te chamou "- Mamã..."

Ainda te recordas…?

E quando, a dado momento,

Deu os primeiros passos,

E tu, pai orgulhoso,

O abraçaste entre as essas mãos,

Amostras firmes de vigor,

Então tão carinhosas...

Não é fácil esquecer…!!!

 

Chorai...

Chorai comigo os filhos das Trevas...

 

Que já tiveram mãe, avós, amigos,

A quem demos a mão,

Com quem brincamos à apanhada,

Escondidas, cabra-cega, monopólio,

Damas, xadrez, gamão, jogos de cartas,

De amor, carinho, afeto ou de amizade...

 

Chorai... Aqueles que sabiam quem tu eras,

A quem contavas, baixinho... a rir, talvez...

Segredos que o mundo inteiro ignorava.

 

Chorai...

Chorai comigo os filhos das Trevas...

 

E sejam brancos, negros, vermelhos,

Arraçados; chineses, esquimós, gregos,

Franceses, angolanos, alemães

Ou portugueses, não nos importa a nós...

 

Chorai...

Chorai comigo budistas,

Católicos, ateus ou protestantes;

Velhos, crianças, meninos e meninas,

Jovens na flor da idade, homens, mulheres,

E toda a gente que neste mundo exista...

 

Chorai...

Chorai comigo...

Uni hoje vossa dor à minha mágoa.

 

Chorai, chorai comigo, ó, por favor...

Que a culpa não é só de quem cultiva,

Trafica ou se vicia... Mas sim de todos nós

Que não fazemos nada para ceifar da Terra

A triste chaga... Ao menos... chorai...

 

Chorai...

Chorai comigo os filhos das Trevas...

Condenados por nós à Morte lenta...

 

Chorai...

Chorai comigo...

Chorai, chorai comigo...

Chorai...

Chorai comigo os filhos das Trevas...

 

Gil Saraiva

Livro de Poesia: O Próximo Homem II - Cai o Medo...

Gil Saraiva
09
Jan20

Cai o Medo.jpg

"CAI O MEDO"

Cai o medo na cidade
E chamam-lhe noite.

Porém,
O Sol sorri ao Povo intimidado,
Mas para os que tremem
No calor
O eclipse aparente não existe
Pois, pura e simplesmente
Já estão cegos...

E para todos eles
As Trevas são reais...


Cegos de medo,
Sedentos de conforto e segurança,
Amantes do estável e do firme
Porque nada mais há de tão hipnótico...

Eles:
Cegos, sedentos e amantes,
São os condutores
Da noite eterna...

"- O Sol só queima o corpo,
Eu nunca o vi brilhar
Na minha alma..."

Parecem dizer as bocas mudas,
Fechadas na noite,
Cariadas de vontade própria...

Cai o medo na cidade
E chamam-lhe silêncio...

Ninguém ouve, ali, agora,
Os gritos dos amordaçados,
Calados pelo estômago,
Apagados no marasmo da noite
E do silêncio...

Cai o medo na cidade
Mas ninguém, ninguém,
Mesmo ninguém
O parece sentir...

No fundo
Todos somos autistas,
Na noite e no silêncio,
Do vil quotidiano...

O medo não vem no dicionário
É mero gene transmitido...

"- Antes sobreviver do que viver..."

Pensamos todos nós
Sem repararmos
Que o nosso pensamento é viciado...

Somos filhos da noite
E do silêncio...

Cai silenciosa a noite na cidade
E ninguém,
Mesmo ninguém repara
Pois só caiu de noite
E em silêncio...

 

Gil Saraiva