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Estro

Estro do meu ego guarda a minha poesia, sem preocupações de forma ou conteúdo, apenas narrativas do que me constitui...

Estro do meu ego guarda a minha poesia, sem preocupações de forma ou conteúdo, apenas narrativas do que me constitui...

Livro de Poesia: Serra da Lua: Eterna Rocha - I

Eterna Rocha.jpg

           I

 

“ETERNA ROCHA”

 

A flor do jardim olhou para mim...

Eu,

Um Vagabundo Dos Limbos,

Da net;

Senhor da Bruma,

Da noite;

Haragano, O Etéreo...

Lenda urbana de quem nunca

Ninguém ouviu falar...

 

Passava perto,

A caminho da vida,

E a flor do jardim olhou para mim...

 

As pétalas penteadas pela brisa,

O tronco hirto e firme pela certeza,

As folhas como braços abertos

Em minha direção...

 

"- É contigo que eu quero partilhar

A minha essência...

Aqui,

Numa cama de pétalas,

Sob um céu de luar...

 

Vem!

Terás contigo o perfume da noite,

O sorriso das estrelas,

A plácida tranquilidade da Serra

Perante a eterna vigília da Lua...

 

Vem!

Ocupa o meu jardim,

Sê meu Senhor,

O Senhor da Serra da Lua,

Dono do meu amar,

Do meu amor…

 

Vem.

Sou toda tua..."

 

Olhei a flor do jardim...

Ainda suspirava na ânsia da resposta...

 

Olhei de novo a flor,

Ali,

Ao sol exposta,

Branca e pura como a pura neve,

Silvestre e livre como a liberdade,

Doce e bela como a natureza...

 

Sorri...

Oh como eu sorri...

Sorri de orgulho daquele olhar florido

Em mim poisado,

De vaidade infinita por me sentir

O desejo profundo de uma flor

Que de mim espera um devir…

E respondi:

 

"- Flor,

Eu sou um Vagabundo Dos Limbos,

Da net;

Senhor da Bruma,

Da noite;

Haragano, O Etéreo,

Lenda urbana de quem nunca

Ninguém ouviu falar,

Buscava perdido o caminho da vida,

Em confusão, e, afinal

Tudo é tão mais simples...

 

Serei teu e serás minha

Se o orvalho da madrugada

Eu puder ser em tua sede,

Alimentando-te a raiz e o existir...

 

Serei, enfim,

O solo onde te firmas,

Servo da terra onde és jardim...

 

Não te quero eu perder,

Dá-me o teu etéreo existir

Na eternidade,

Transmuta-me na Serra da Lua...

 

Que a minha voz seja agora

A do vento que sopra de Ocidente,

A saliva

O mar

Que desagua no meu corpo

E meus passos as pegadas do futuro

Que um qualquer dinossauro

Marcou na eterna rocha..."

 

Gil Saraiva

Pegadas Eterna Rocha.jpg

 

Livro de Poesia: Serra da Lua: - Introdução

Serra da Lua.jpg

INTRODUÇÃO

 

A vila de Sintra tem origens que se perdem no tempo e remontam ao período neolítico. Uma janela temporal que se estende entre 10 mil a 3 mil anos a.C., ou seja, desde que os homens começaram a assentar arraiais que, sem dificuldade, se podem encontrar registos pré-históricos no Concelho de Sintra. Não cabe a este preambulo reescrever a história toda nem mesmo sequer contá-la, num detalhe que a provaria como única e especial no contexto mundial.

Importa assinalar que os primeiros registos humanos da região foram encontrados na Serra de Sintra, perto de onde hoje se localiza São Pedro de Penaferrim e remontam ao início do V milénio a.C., tendo a região sido ocupada por diferentes povos e culturas. É no século II a.C. que a zona é tomada pelos romanos. São eles que revelam, primeiramente, o misticismo especial da região, as práticas religiosas ou pagãs, que os precederam e que se mantiveram depois de adaptadas à cultura romana. Sintra foi romana por 7 séculos e entre 30 e 50 a.C., não se sabe ao certo, passou a município pelas mãos de Júlio César ou de Octávio.

Ptolomeu, frequentemente considerado um dos pilares da astronomia antiga, era um cientista grego que viveu em Alexandria e é um dos frutos notáveis da famosa escola de Alexandria, no Egito, sob o domínio romano de Adriano. Porém, a criação da astronomia tem a sua fundação mais de um século antes com Hiparco. Foi, contudo, Ptolomeu que usou pela primeira vez a designação “Serra da Lua” para denominar a serra de Sintra. Ainda nos dias de hoje há quem se interrogue o que terá levado Ptolomeu, no Egito, a referir-se a Sintra.

Suntria é a forma medieval mais antiga que se conhece de Sintra, tem, ao que tudo indica uma origem indo-europeia e significaria Sol ou astro luminoso. Já a classificação da serra como Monte Sagrado remonta ou a Varrão, ainda no segundo século a.C. ou a Columeia, já no primeiro século d.C., as opiniões sobre o assunto dividem-se, não deixando de ser ambas bem remotas.

Durante o domínio árabe, que durou mais de quinhentos anos, no século X, um geógrafo árabe, de nome Al-Bacr, classificou Sintra como a terra “permanentemente mergulhada numa bruma que não se dissipa”, embora se defenda que ele se estava a referir apenas à serra onde os árabes tinham o seu castelo. São dessa altura as designações de Sintra como Xintara ou Shantara (em árabe), onde esta aparece como sendo uma das principais localidades do Califado do Al-Andaluz, um dos principais califados árabes na Península Ibérica. A influência árabe, que nunca apagou os registos celtas da região, também jamais se deixaria desaparecer depois de perder o poder na zona. Mantiveram-se nomes de locais, muitos mitos e algumas tradições desses tempos que ainda hoje ecoam serra abaixo.

No Século XI dá-se a reconquista cristã, pelo Rei Afonso VI de Leão, mas, por várias vezes se perde o domínio cristão de Sintra que, na altura, depois de Lisboa, era o polo económico mais importante da região. São precisos 50 anos, entre a última década do século XI até 1147 para, já em meados do século XII, poucos anos após a transformação do condado portucalense em Portugal (em 1143), D. Afonso Henriques consolidar definitivamente Sintra como território português e consequentemente cristão. Uma terra difícil de conquistar pelo apego e paixão dos povos à sua singularidade e riqueza de contrastes.

Uma vez integrada em território nacional Sintra evoluiu e expandiu-se exercendo a sua influência pelos terrenos em seu redor. A terra das grandes maçãs, descrita deste a antiguidade como chegando a ter quatro palmos de perímetro, impôs o seu domínio regional até abranger a dimensão que hoje se lhe conhece. Contudo, foi o real amor por estas paragens que as fizeram crescer em termos românticos arquitetónicos e mesmo arqueológicos, com a realeza e a nobreza a implantarem palácios, palacetes, grandes casas senhoriais, quintas, fontes, monumentos, igrejas, capelas e infraestruturas por todo o seu território.

De todo o mundo foram importadas árvores exóticas e raras para serem plantadas na serra. A flora foi deliberadamente implantada para gerar impacto, beleza e misticismo. Criaram-se jardins únicos, esplendorosos, frescos, verdejantes e românticos, como nunca aquela terra vira nascer até ali. Camões, referindo-se ao Cabo da Roca descreve-o como sendo o local “onde a terra se acaba e o mar começa” sendo este, realmente, o ponto mais ocidental da Europa. Poetas e Escritores ingleses também ajudaram a criar a imagem de paraíso que envolve Sintra, uns chama-lhe o Éden da Terra, Lord Byron descreve-a como a vila mais bonita do mundo, o prémio nobel da literatura Isaac Bashevis Singer, dedica-lhe o conto “Sabbath in Portugal” onde se retrata a passear por Sintra. Há registo da admiração por Sintra por parte de nórdicos, franceses, italianos, gregos, holandeses e, evidentemente, portugueses. São muitos e famosos os exemplos da paixão contínua e permanente pela Paisagem Cultural de Sintra, Património Mundial da UNESCO.

Contudo, é nesta terra, onde um batólito, na Praia Grande, ainda tem gravadas, de forma bem visível, pegadas de dinossauros impressas em tempos imemoriais, que uma mística especial se instalou para nunca mais se desvanecer. O batólito, que algures na história da Terra rodou sobre si mesmo 90 graus, retrata agora na sua parede, os passos pré-históricos dados por esses seres antigos muito antes do despontar da humanidade. É ele que encarna a antiguidade de Sintra e da sua serra, cuja altura máxima se eleva 520 metros a cima do nível do mar. É ele que serve de marco misterioso e singular, pelo registo, agora vertical, dessa passagem, perdida no tempo, dos gigantes, por Sintra, ali bem junto à Praia Grande.

O encontro entre serra e mar, o capacete nubloso no topo dos montes, a bruma permanente, o acabar das terras do ocidente, os registros pré-históricos, a diversidade de culturas e povos apaixonados pela região ao longo da sua história, a marca e o registo da sua influência em grandes nomes da história, geraram lendas, narrativas, ficções, romances, contos, fantasias, fábulas e mistérios, do sagrado ao profano, do místico ao histórico, do real ao sobrenatural. As utopias de uns passaram, depois de adaptadas, a ser os milagres de outros ou os contos de mais alguém. As culturas misturaram-se inventando novos mitos e ritos, descrevendo histórias, gerando ficções, inventando poemas, mezinhas e feitiços impossíveis.

Sintra, tem de tudo: lendas de mouras encantadas, contos de fadas, crónicas de elfos, ogres, gnomos, seres ocultos e irreais, entre outros entes, rituais de druidas, de encantadores, de magos e magas, bruxas e feiticeiros, novelas de paixão, de amor, de dor e de coragem, cantos e recantos recortados pelos verdes da imensa vegetação, rasgada por inúmeros cursos de água, ribeiros e ribeiras, pequenos rios que não riem, mas que à fauna e à flora a sede matam, fontes e fontanários, cursos de água que aparecem e desaparecem pela serra, cavando tuneis, ligando grutas misteriosas, muitas ainda por descobrir, um não mais acabar de segredos, mistérios e neblina que a tornam única, singular e absolutamente especial.

Na serra, o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena, são apenas 2 dos marcos que se erguem sobre a vila. Um microclima impõe um caráter exclusivo a toda a região. A humidade e a bruma espalham o mistério consolidando tuneis e passagens secretas que ligam a serra à vila e que se alastram como uma teia oculta por todo o concelho. Há passagens destas que viajam quilómetros debaixo de rochas e penedos, atravessam a várzea, despontando finalmente em locais remotos e longínquos. Um deles chega a Rio de Mouro, já bem longe da serra. Há quem se questione sobre quantos mais estarão por descobrir. Os mistérios de Sintra nunca se desvendarão todos dizem vozes convencidas do ocultismo vibrante da região. O sobrenatural parece ter sede na Serra da Lua. Há quem fale de aparições, maldições, sacrilégios, rituais, fantasmas, lobisomens e vampiros. Tudo converge na mística névoa de senhores da bruma, quase sempre sem provas, factos ou bases que deem crédito às narrativas. O importante é o mistério.

As lendas e narrativas proliferam entre o pagão e o religioso, existem relatos de aparições, sortilégios, poções, feitiços, pragas, remédios, macumbas, magias e até da presença de seres de mundos que não o nosso. Nada que alguém se preocupe em provar ou demonstrar como real e evidente, a não ser, talvez, um ou outro fanático mais entusiasmado. É do restolhar das meias verdades inconclusivas que a serra se alimenta e prospera por entre a bruma.

Sintra é um local único e irrepetível, talhado na simbiose entre natureza e humanidade de uma forma singular. Onde a luz e a sombra trocam papeis como se do dia e da noite se tratassem. Onde a serra abraça a Lua como em mais nenhum lugar no mundo inteiro. Onde a bruma ganha corpo e quase vida, onde a luz se divide em tremendo confronto com as trevas. No cerne de tudo se ergue a Serra da Lua, que me inspirou em alguns livros que lhe dediquei. Nesta terra onde vivi 7 anos, perdido de amores, perdido de mim, perdido de solidão, porque aqui, nesta berma da existência, tudo acontece, tudo é possível tudo se contraria e reafirma. Enfim, tudo é poesia em paixão e movimento.

 

Gil Saraiva

 

 

Livro de Poesia - Gota de Lágrima: Gota de Lágrima II - XI (Último)

Gota de Lágrima II.jpg

            XIII

 

"GOTA DE LÁGRIMA II”

 

Olhei pela primeira vez a gota

E ela, pelo reflexo do espelho,

Olhou para mim,

Sem dizer nada.

Curioso, pela troca de olhares,

Pelo seu nome eu indaguei com o sobrolho…

 

“- Lágrima, chamo-me Lágrima.”

 

Retorquiu serena,

Sem sorrir.

Depois olhou para mim e,

Novamente,

Voltou a falar,

Para indagar:

 

“- Que rosto triste,

Que cara dorida…

Diz-me o que existe

No fundo oculto dessa alma;

Que mal te fez a vida,

Para que a mágoa te invada

E te retire assim da doce calma?

Porque tens tu a paz contaminada?”

 

Não respondi, de pronto, admirado,

E a gota insistiu, uma vez mais,

E perguntou,

Depois de observar meu ar pasmado,

De quem no meio da dor

Jamais espera ser interrogado:

 

“- Explica-me a que se deve

Esse ar cansado?

Foram as minhas irmãs

Que te marcaram o rosto

Assim, baço, agastado?

Alguma coisa tenebrosa

Te corrói

Esse teu rosto macerado…

Diz-me onde te dói,

Porque tens tu esse semblante

Perdido, alheio, tão pisado?”

 

Dentro de mim, o coração e o ego

Partilhavam, entre si, opiniões.

Não era fácil aquela conversa

Entre um ente quase cego

E outro esgotado de boas sensações.

A verdade submersa

Teimava em se manter calada,

Escondida da voz em galeões

Que navegam em rota não traçada…

O que dizer à gota, ali,

No meu rosto, parada?

Ali, tremendo em desequilíbrio,

Sem saber se cai

Ou não faz nada.

Em meu auxílio, não sei bem de onde,

Chegou ofegante e apressada,

Como quem vem de longe,

Uma jovem e fresca coragem

Que trazia a minha voz:

 

“- Gota de Lágrima, que estás de passagem,

Eu choro o meu eu que já foi nós,

Sofro pela vida que um dia perdi,

A mulher da minha juventude,

Aquela… a quem jamais esqueci.

Não posso sequer ter outra atitude…

Existo, porém, sem ela nada sou,

Assim, perdido, eu ando dia-a-dia,

Não sei o que fazer, para onde vou,

Nem mesmo sei estancar minha agonia…”

 

Pelo reflexo do espelho uma vez mais

A Gota de Lágrima hesitou,

Por segundos, que foram demais.

Nada disse, nada fez e nem falou…

Por fim, como mensagem de murais,

Afinando a voz, que se elevou,

Escreveu no mural palavrais tais:

“- Quem te disse que o existir apenas tem

Na vida um só amor, diz-me quem foi?

Não chores, ri, espera pelo que aí vem…

Muda de atitude, acorda a valentia,

Desperta a vontade e a coragem,

Mais o humor, o sorrir e a alegria,

Altera o rumo, enfim, dessa viagem,

E sai da escuridão, regressa ao dia!”

 

E a Gota de Lágrima parada,

Olhou para mim de uma maneira,

Como quem abre nova estrada,

Um rumo,

Sem sombras e sem fel,

Apontando caminhos sem fronteira,

Onde o ego é aço,

E não papel,

Aonde a felicidade é verdadeira,

Porque o coração é casa,

E não hotel,

Pois que todos podemos procurar

Um novo amor para a habitar…

 

Depois…

A gota tremeu uma vez mais…

Sorriu, tremeu, brilhou,

Escorrendo em minha face,

Se soltou

E caiu, no chão,

No meio do pó,

Terminando o seu longo caminho…

Olhando o espelho me vi

Outra vez só,

Mas dentro de mim

Algo acordou

Agora já não estou sozinho…

 

Posso ter batalhas,

Lágrimas, ilusão,

Muitas falhas,

Mágoas, mesmo dor,

Mas enquanto bater

Meu coração,

Dando a meu ego hipóteses de ser,

Eu sei que talvez, possa conquistar,

De novo, um novo amor…

Um grande amor!

 

Gil Saraiva

Livro de Poesia - Paradigmas do Meu Ego: II - Exige

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   XII

 

"EXIGE"

 

Tu existes num mundo longínquo,

Distante do olhar,

Do toque,

Do sentir...

 

Teus sonhos são meras ilusões,

Ondas lançadas

Num Atlântico sem fim,

Cuja espuma se desfaz

Nas areias vãs

Deste velho continente...

 

Amar,

Porém,

Exige a atracão

Entre dois polos

De idêntico sinal,

Contrariando as leis da física...

 

Amar

Exige o sorriso do vento

Em nossa pele,

A fusão do pensar

E do sentir,

O acender da lágrima

Em chamas de milagre

Quando a própria chama

Se extinguiu...

 

Gil Saraiva

Livro de Poesia - Gota de Lágrima: Bateu... - X

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XI

 

"BATEU..."

 

Bateu,

Algures no mundo,

Um coração...

 

Bateu de amor,

De dor,

De sofrimento...

 

Bateu

Milhares de vezes

Num momento...

 

E ninguém o ouviu,

Nem mesmo eu...

Nem mesmo eu!

 

Bateu,

Chamou a vida

Em alta voz,

Mas ela em despedida,

Pareceu querer ficar

A sós...

 

Bateu,

Gritou pelo amor

Em pulmões plenos,

De um ar sem o calor

De verões serenos...

 

Bateu,

Chorou saudade

Pelos cantos frios,

Mas a resposta

Se esvaziou nos rios...

 

Bateu um coração

Em vil tormento…

 

Bateu

Milhares de vezes

Num momento...

 

E ninguém o ouviu,

Nem mesmo eu...

Nem mesmo eu!

 

Gil Saraiva

Livro de Poesia - Paradigmas do Meu Ego:Amanhã - III

Amanhã.jpg

      X

 

"AMANHÃ"

 

A manhã passou

Pela minha pele

O radioso sorriso

Do seu Sol...

 

A dançar,

Atravessei as portas

Da alma...

 

Lá dentro

Um hino erguia-se mais alto

Com sons de dádiva

E oração...

 

Um hino à vida,

Uma melodia plena

De odores de amor,

Correndo entre essências,

Que germinam existências,

Num ocaso rubro de ilusões...

Rara visão esta!...

 

A um canto,

Para lá das portas da alma,

Um caixão coberto de flores

Parecia sozinho...

 

Porém, na sombra,

Uma velha senhora,

Aparentando ter morrido,

Velava abandonada

Numa cadeira feita de mágoa e dor...

 

Velava a morte,

Dentro do caixão,

Entre pétalas e espinhos:

Pétalas de amor;

Espinhos de tristeza...

 

A senhora,

A quem o tempo que passou

Chamou de eternidade,

Parecia não sair dali...

Todavia,

Olhando em redor,

Lá a fui descobrindo,

Um pouco

Em toda a parte!

 

Já não sofria

No canto da felicidade!...

Ria, dançando,

Ao ritmo vivo da alegria!

 

Noutro, o da saudade,

Chorava

Rios de suspiros

E lagos de esperança...

 

Mais além,

No recanto do amor,

Parecia ter dezoito anos

Tal era a orla

Repleta de Emoção...

 

A manhã passou

Pelos meus lábios

Num sensual beijo

De existir...

 

E, sem querer,

Descobri,

Nesse momento,

Porque vale a pena

Esperar por amanhã!

 

Gil Saraiva

Livro de Poesia - Gota de Lágrima: O Dia Internacional da Mulher - IX

O Dia Internacional da Mulher.jpg

                  IX

 

"O DIA INTERNACIONAL DA MULHER..."

 

O outro dia

Foi o Dia Internacional da Mulher,

Mas...?

Então... e hoje...?

E os outros trezentos

E sessenta e quatro dias

De quem são?

 

Um, eu sei...

Onde há peru ou leitão...

É Natal,

Dia do Rei,

Do Papa ou do sacristão...

 

Outro ainda eu conheço,

É terça de Carnaval,

Tem também um da Criança

E outro dos Namorados...

Mas que nos importa afinal

Esses dias de lembrança,

Seja dia de Finados

Ou dum longo tempo Pascal?

 

E o dia do ladrão?

Da alegria? Da velha?

Da fome ou da tradição...?

Ninguém me diz quando são?

 

O Dia Internacional da Mulher...

Mas que coisa que inventaram,

Um dia que aproveitaram

Para enganar… quem quiser...

Exploram e chamam fraco

Ao sexo feminino...

Esse bebé é menino?

Ou… a menina está bem?

Não!

Eles não enganam ninguém!

É medo... Eu sei!

É medo que fique forte...

Dão-lhe um dia, fazem corte,

E através dele criam lei...

Mas que grande hipocrisia,

Dos senhores da valentia...

 

O outro dia

Foi o Dia Internacional da Mulher.

Mas...? Então... e hoje...?

E os outros trezentos

E sessenta e quatro dias de quem são?

 

São daqueles a quem

Um seio materno

Deu vigor, amor, dedicação...

São daqueles por quem

Esse ser terno

Sentiu dor, fome,

Raiva, humilhação...

Nos outros dias do ano,

Nos dias do dia-a-dia,

Eu vejo a panela ao lume,

A casa passada a pano,

A rotina do costume:

Roupa cosida, lavada,

Comida bem preparada,

Casa pronta,

Chão esfregado,

E o soalho encerado...

Mais o trabalho lá fora,

Pago por meio ordenado,

Se quiser ou vai embora...

 

Nos outros dias do ano

Sexo fraco é para manter,

Assim manda o soberano,

Porque assim é que é viver...

 

Ter que ser mãe

E ser escrava,

Fazer tudo e calar só.

Andar descalça na lava

E depois limpar o pó...

E não esquecer o marido,

Pois o pobre homem,

Coitado,

Deve estar aborrecido,

Se deve sentir cansado,

Porque cansa

Ser servido

E dar ordens bem sentado...

 

O outro dia foi o Dia Internacional da Mulher…

Mas...? Então... e hoje...?

E os outros trezentos

E sessenta e quatro dias

De quem são?

 

Não importa!

Mulheres do mundo inteiro,

Digam: Não!

No Paquistão,

Ou no mais simples outeiro...

 

Desse dia da mulher

Façam um dia de luta!

Porque há de a mulher

Ser puta e o homem

Garanhão?

 

Nesse dia da mulher

Façam vigílias e luto

Contra o Patriarca bruto,

Neste mundo

De tabus e repressões...

Digam bem alto,

Gritando:

"- Chega de humilhações!"

Que esse dia da mulher

Seja apenas mais um dia

Para as que já conquistaram

O que mundo lhes devia...

 

Porém,

Para a maioria:

É o dia da revolta,

Não de festa,

Mas de garra,

De uma garra

Que se solta

Para acabar a fanfarra,

Para impor a igualdade,

Para conquistar:

Liberdade!

 

O outro dia

Foi o Dia Internacional da Mulher...

 

 Gil Saraiva

 

 

Livro de Poesia - Gota de Lágrima: Os Olhos da Testemunha... - VIII

Os olhos da Testemuna.jpg

                VIII

 

"OS OLHOS DA TESTEMUNHA"

 

Ela viu!

 

Ela viu a pedra dura

Na mão

Do criminoso...

O movimento fatídico

Do braço...

A explosão de sangue quente

Na fronte aberta

De uma vítima...

 

Ela viu...

 

No sítio incerto,

Na hora errada,

O facto absurdo...

E os olhos

Da testemunha

Brilharam parados...

 

Ela viu

Que ele a viu a ela!...

 

Gil Saraiva

Livro de Poesia - Gota de Lágrima: Embrião - VII

Embrião.jpg

     VII

 

"EMBRIÃO"

 

"- Já sinto o nosso menino..."

 

Diz a mãe,

Com lágrimas nos olhos

E flores no coração...

 

"- Vem, põe aqui a mão,

Também o sentes?"

 

E o pai envergonhado

Diz que não...

 

O embrião corre pró milagre,

Mais alguns meses

E irá nascer...

 

E os pais perguntam:

"- Quem será ele um dia?"

"- Que missão terá ele

Neste mundo?"

"- O que fará

O nosso querido filho...?"

 

"- Que nome lhe daremos?"

"- Adolfo...?"

"- Lindo..."

Diz o pai...

"- Adolfo... Adolfo Hitler!"

 

Até o mal,

Um dia, teve

De nascer...

E quantas vezes

Ele nasce

Por amor?

 

O que faríamos nós

Se, previamente,

Conseguíssemos saber?...

 

 Gil Saraiva

Livro de Poesia - Gota de Lágrima: Todos Conhecem a Terra... - VI

Todos Conhecem a Terra.jpg

                  VI

 

"TODOS CONHECEM A TERRA...”

 

Todos conhecem a Terra

 

Que vem dos confins do Tempo,

Vem de um talvez contratempo,

É testemunha afinal;

Vem de tochas e de fráguas,

Tem o timbre

Dos cantores,

Tédios,

Tranquilos, vapores

No transparente das águas…

 

Tem

Temporal de bágoas

Em temores de rostos mil,

Tem tempestade viril

Na transcendência do Ser...

 

Todos conhecem a Terra,

 

Tradição,

Trigo,

Ternura,

Um terreno de bravura

A transbordar

Tatuagens,

Qual talismã de miragens

De uma tarde ainda futura...

 

Todos conhecem a Terra,

 

Texto, terreiro, trabalho,

Trato, taxa ou espantalho,

Trégua em tratado tardio...

Taciturna por um fio;

Território, telegrama,

Transitório trunfo, trama

A transbordar de tensão...

 

Tabuleiro de tornado,

Turno de turma, pecado,

O tardar da televisão

Que é sinal de tempestade;

Tomar tarefa, torpedo,

Trincheira cheia de medo…

 

Trânsito,

Tiro de verdade,

Telemóvel e brinquedo;

Transtornada tentação,

Terramoto,

Temperatura,

Tiquetaque de rotura…

 

Tromba-d'água, tubarão;

Talhar de teima, temer,

Tecer truque tenebroso,

Testemunho que odioso

Nos faz tombar e torcer...

 

Todos conhecem a Terra,

 

Que é trampolim da comédia

E que num truque se encerra,

De transpirar sem recibo

Em tirania e tragédia

Na traição de uma tribo...

 

Todos conhecem a Terra,

 

Telefone de trovão

Que tosse

Como um tufão

Tóxicos traumas da guerra,

Que não para, não tem termo,

Não tem fim, é um tormento...

 

Tantas toupeiras num ermo,

Quais tanques em movimento,

Três, treze e quantas mais

Vão cavar túmulos fatais...?

 

Todos conhecem a Terra,

 

Onde até o topo erra,

Que é como um túnel, tesouro,

Termómetro

E tenebroso

Tráfico feito sem ouro,

Por um bandido tinhoso,

Que trafica à tonelada,

Sem tática ter traçada...

 

Tráfego,

Tranca, tarado,

Testículo abandonado

Por um traidor que merecia

Não um trono,

Mas torrado,

Ser em turbina de azia,

Sem eles morrer castrado...

 

Todos conhecem a Terra,

 

Técnica,

Troféu total,

Tímpano,

Trauma, torneio,

Transporte e tribunal,

Tanto trilho,

Transfusão,

Tentáculo de traiçoeiro,

Travessia terminal

Da trincheira de um tumor...

Troco,

Turista, terror,

Tratamento pra tirar

Tudo o que houver que depor,

Sem a tropa a tripular...

 

Todos conhecem a Terra...

 

E se houver uma Terceira

Guerra de trevas final,

Começada à terça-feira

Por um taliban fatal...?

Temível, totalitário,

Louco querendo trucidar

Um trémulo mundo ao contrário

Que não sabe ripostar...

 

Da tristeza à transfusão,

Com um terço em cada mão,

Vamos todos esperar

Que em bem possa terminar

Esta luta dita santa

Por quem tem cérebro de anta,

Que as torres, fez desabar!...

 

Todos conhecem a Terra...

 

Se tramou a Economia

Capitalismo tremeu,

Tradução que tardaria

A trazer luz neste breu...

 

Direitos Humanos? Tampão!

Tratamento em turbilhão...

 

Troika trocos troca, tintas

Pintam tapumes tapando

Com cores de Tirania

Tratados tornados fintas...

 

Lá os Direitos Humanos

De gregos ou portugueses

Tomados pelos germanos

Aos Estados tão totós

Triturados como em mós...

 

Mas nada disto adianta,

Todos conhecem a Terra:

 

Havendo homens no mundo,

Num segundo travar guerra

É tara, filosofia,

Sonho tornado magia

Que vem dos confins do Tempo,

Vem de um talvez contratempo…

 

Testemunho que entre mil

Nos faz tombar

E torcer

Em tempestade viril

Na transcendência do Ser...

 

Gil Saraiva

 

 

 

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