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Estro

Estro do meu ego guarda a minha poesia, sem preocupações de forma ou conteúdo, apenas narrativas do que me constitui...

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Livro de Poesia - Crença em um Fanal na Chona Lôbrega: A Praia - XI

A Praia.JPG    XI

 

"A PRAIA"

 

Chegam-me imagens

De gente destapada,

Ardem-me as costas,

Ao Sol do verão, desnudas.

 

Morre-me a sede

Na cerveja gelada,

Sorri-me a areia

De cristais ferventes,

Bate-me a onda, bem ritmada,

Nas pernas molhadas,

Frescas, dormentes.

 

Golfinhos nadam na maré vasa,

Brincando e saltando de alegria.

 

Partem no barco de regresso a casa

Turistas, sorrindo na travessia

Da Ria, a que todos chamam Formosa,

Que nada quer com a pandemia.

 

Corre este ano de 2020,

A doença não chegou aqui,

A esta Fuzeta de sorrisos quentes,

Neste setembro que parece agosto.

Não fossem as máscaras,

Nos escondendo o rosto,

Diria que nada se passa de mal,

Que tudo é paz, tudo é normal.

 

Um banho, mais tépido que fresco,

Refresca-me o corpo, a alma e o ser,

Um pão mata-me a fome,

De estar, de amar e de viver.

Agradece o corpo, não pelo que come,

Mas por ali não se adoecer.

 

Olho em redor e sinto a praia,

A ria, a brisa, a onda do mar,

E dou comigo bem satisfeito,

Traçando pegadas, a assobiar…

 

Em toalhas, estendidas no areal,

Corpos de gente tisnam ao Sol,

Sobre o manto de areia creme,

Na brisa amena, quase tropical,

Junto ao mar, infindo lençol,

Um azul imenso, que vírus não teme…

 

Ondas modestas e salpicadas,

Na beira-mar batizam crianças,

Que fazem muralhas enfeitiçadas,

Alheias de um ano cheio de mudanças.

Brincam traquinas, parecem felizes,

Queimados pela luz, numa pele que geme,

De ultravioletas que geram matizes,

Que mente gaiata nem nota, nem teme.

 

A manhã passou, ninguém deu por ela,

Chegou a tarde à praia encantada,

Chegou também quente, quase afogueada,

Trazendo mais luz, que sem janela,

Aperta o calor, sem dizer nada.

A tarde fugiu, ninguém reparou,

As sombras nos colmos mudaram de novo,

Finalmente alguém um relógio olhou

E a praia começou a ficar deserta,

Porque o último barco tem hora certa.

 

A praia da ilha da bela Fuzeta,

Ficou sozinha, com seus passadiços,

E os raios do Sol, agora mortiços,

Parecem asas de borboleta

Mostrando às gentes o regresso à vila.

 

Voltam as máscaras de novo ao rosto,

Junto à partida forma-se a fila,

Olhos perdidos prometem agora

Voltar à praia vazia, que chora…

 

Já desembarcado, na vila, por fim,

Procuro um lugar, no farol, que é esplanada,

E que nos convida a um copo, a festim,

De um dia pleno, sem pensar nada,

Que apenas a praia ocupa a memória

De um dia sem vírus, um dia para a história.

 

O que fazer para não ver o pôr-do-sol?

Para não sentir no rosto a brisa?

Para não comer o caracol,

Que com a cerveja se harmoniza?

 

Chego a pensar em ti, no teu olhar,

Na vontade que tenho de te amar,

Chegado da praia, em fim verão,

Sonho saudoso o toque ardente,

Esse sentir arrepiante e quente,

Que vem sereno dessa tua mão.

 

Chegam-me imagens

De gente destapada,

Ardem-me as costas,

Ao Sol do verão, desnudas.

 

Gil Saraiva

 

 

 

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