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Estro

Estro do meu ego guarda a minha poesia, sem preocupações de forma ou conteúdo, apenas narrativas do que me constitui...

Estro do meu ego guarda a minha poesia, sem preocupações de forma ou conteúdo, apenas narrativas do que me constitui...

Livro de Poesia: Portaló - Parte II - Portaló - VI - A Vigília

A Vigília.JPG

         VI

 

“A VIGÍLIA”

 

O sonho parece não ter fim…

Criando pequenas praias graciosas

O mar banha os despontares de areia,

Com flores de espuma, qual jardim,

Regado a gotas de oceano, preciosas,

Pérolas de mar na maré cheia…

 

De forma suave, harmoniosa,

Chegam as águas fluidas à muralha,

E a meiga ondulação vai radiosa

Penteando as pedras sem batalha,

Numa paz cúmplice que enleia

As margens por onde serpenteia…

 

Na piscina do hotel a queda de água

Trauteia indolente a voz da vida,

Sem sinas, tristeza ou sequer mágoa,

Apenas porque a vida lhe é querida…

Ao fundo um colorido bar molhado,

Servido por morena no sorrir garrida,

Refresca, por dentro e por fora,

O mais acalorado convidado,

Para quem as cervejinhas, canapés

Ajudam a ficar mais relaxado,

Na plácida vigília dos chalés….

 

Subitamente, tu entras na piscina,

E a água reflete as tuas formas

Num misto de sereia e de menina,

Que rompe status quo, rompe normas,

Apenas transmitindo o sensual

Apelo ao sexo, pelo movimento,

De um nadar suave e natural.

 

Tocam alarmes no meu pensamento

Há muitos predadores

À solta, a esta hora,

Que, tal como nativos batedores,

Vão dar por ti e sem demora.

Qual harpia me ergo concentrado,

Para além de meu amor, tu és família,

De pé, monto o meu posto de soldado,

Anunciando que estou de vigília.

Tu dás conta do meu ar de vigilante,

Rindo, tiras da água o corpo sedutor,

Dizendo bem alto e provocante:

“- Anda, vem, vamos fazer amor.”

 

Gil Saraiva

 

* Parte I I - Portaló ou o Sortilégio do Paraíso

Livro de Poesia: Portaló (Memórias da Bahia) - Introdução e Dedicatória

Portaló.JPG

Introdução

Portaló, Memórias da Bahia, é um livro de poesia dedicado à descoberta de um amor adulto, sério, intenso, com travos de sensibilidade e sensualidade que se degusta no ato e se sente nas fragrâncias da volúpia que nos invade o olfato e que se descobre nas impressões táteis do cruzar das dermes. Um amor cálido, como a própria Bahia, quer na exploração improvisada das mãos, que comandam dedos, como se de batedores se tratassem, na demanda das sensações primitivas, encobertas pela suave e macia apresentação contemporânea da moda, acetinada por cremes, loções e elixires perfumados de exotismo, urbanidade, beleza e transcendência.

Um amor selvagem, influenciado pela mata atlântica de uma Bahia perdida nos costumes genuínos, quantos deles ainda com fôlegos tribais de ancestralidade inata e natural que, quase sem aviso, nos invade em sons perturbados de animais, que desconhecemos, na penumbra ou através dos nossos próprios gemidos, durante os intensos momentos de prazer que partilhamos a dois. Aliás, um amor tribal, no trocar de olhares cúmplices e concupiscentes, perdidos um no outro ou na paisagem que se transfigura, entre a urbanidade e a selva, e que se revela perfeita na beleza do nosso próprio enquadramento romântico, em perfeito devaneio.

Enfim, um amor onde ecoam os sons ocultos que emitimos, as frases que trocamos, dos olhares que se deleitam em beijos de paixão tão luxuriante como o horizonte marítimo que nos rodeia, seja na chegada matinal da aurora interrompendo o breu, seja no crepúsculo que, suavemente, nos afasta do mais erótico pôr-do-sol alguma vez presenciado. Um amor de haragano, essa palavra nascida no Brasil, que na lusofonia ganhou créditos de equídeo difícil de domar, de vagabundo perdido nas margens de uma Bahia única, que nos torna vadios e etéreos aos sons da Bossa Nova, das Mornas e dos Sambas de tempos de outrora. Um amor etéreo, como a transmissão das radiolas de qualidade rudimentar, que propagam no presente, pelos ares, a musicalidade dos sucessos do passado.

Um amor gritado para o universo humanizado pela internet imaterial, eletrónica, inumana, etérea e impulsiva, difundido nos computadores, nas televisões, nos telemóveis, nos “ipads”, “iphones” e outros ais bem mais carnais, mas igualmente repletos de energia, vitalidade, vibração e imagens de inesquecível esplendor, por esse novo limbo incorpóreo de comunicação infinita, num mundo de sinergias ativas, mutantes e em perpétuo movimento.

Numa palavra um amor haragano, etéreo e corpóreo como nós, como eu. Um amor vagabundo da palavra e nesses limbos denominados internet, onde registo os instantes onde fui átomo e universo, num portal mágico, histórico e de pedra erigido,  um portaló velhinho, numa baía com quem nos fundimos na plenitude indeterminada de atos, gestos, vislumbres e palavras que tornam a enseada sagrada, maiúscula, ornamentada de agá, de haragano, e que na nossa voz se diz Bahia.

Em resumo, este é o livro de um amor em Portaló, aquele hotel mágico do Morro de S. Paulo, na ilha de Tinharé, no seu arquipélago, na Bahia, nesse Nordeste único por quem morro de saudades, que samba Brasil e grita amor. No caso, o meu amor. Quiçá, o nosso amor.

Este livro divide-se em duas partes. A Parte I: Paisagens ou o Sortilégio da Paixão. A Parte II: Portaló ou o Sortilégio do Paraíso.

Gil Saraiva

Dedicatória

Em termos de dedicatória poderia tecer aqui as banalidades do costume, mas estas, felizmente, não se aplicam. É bem melhor transmitir o que me vai no íntimo, neste meu sentir, deste meu estro renascido no brilho desse teu olhar.

Dedico este livro a quem deu, finalmente, uma razão de ser e de existir ao meu quase meio século de vida. Eu sabia que teria de haver uma razão, mas nunca imaginei que fosse tão doce, tão compensadora e tão gratificante. Este livro é para ti amor. Tu que, um dia, me fizeste sentir que eu era alguém. Este é para ti, para mais ninguém.

Gil Saraiva

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