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Estro

Estro do meu ego guarda a minha poesia, sem preocupações de forma ou conteúdo, apenas narrativas do que me constitui...

Estro do meu ego guarda a minha poesia, sem preocupações de forma ou conteúdo, apenas narrativas do que me constitui...

Livro de Poesia: Achas de um Vagabundo - Os Azares de um Homem de Sorte

Os Azares de um Homem de Sorte.jpg

"OS AZARES DE UM HOMEM DE SORTE"

 

Sou um homem de sorte!

Perguntam-me porquê?

Coisa mais simples:

Tenho a sorte de ser feliz,

Alegre,

Um otimista, enfim...

 

Mas e a Vida corre bem?

Ah... a Vida...

Essa ingrata criatura,

Sem forma ou rosto,

Nem sempre corre

Quanto mais bem...

 

Se é pra subir,

Subir na Vida,

Quase gatinha

A pobre atrapalhada.

Mas a descer é mestre,

Dá cartas,

Tem os recordes todos

E as medalhas...

Parece andar a jato,

É campeã!

 

Nos momentos sem altos

E sem baixos

Marca passo,

Conta um por um,

Como se cada passo

Fosse ouro

Que há que guardar para sempre,

Qual tesouro!...

 

É prima dos Azares a minha Vida,

Com eles convive sem pudor,

Dão-se tão bem,

No dia-a-dia,

Que chego a pensar

Se não seria melhor

Que casassem por amor!...

 

Se casa, carro, mulher,

Perco de uma vez apenas,

Diz-me a Vida que é banal...

Um azar nunca vem só!...

 

E se um outro azar houver

É normal,

É natural:

Seja a falência da firma,

Seja o que Deus quiser...

Um azar nunca vem só!

 

Mas sou um homem de sorte!

Estou vivo,

Choro e coro

Com todas as minhas forças...

E nem a madrasta Morte

Me bate à porta, faz tempo...

Para rir

Basta um sorriso

De quem me quer

Como sou...

 

Ah! Sim...

Eu sou um homem de sorte...

Tudo o resto são más línguas;

Coisas

Que o vento levou...

 

E se a tal,

A minha Vida,

Comigo quiser viver,

A sorrir

Tem que aprender,

Que eu tenho mais que fazer

Que aturar os primos dela,

Esses Azares

Sem gosto,

Viciados no desgosto...

 

Sorriam, estou bem disposto,

Pois sou um homem de sorte,

Para quem sempre é Natal

Ou Páscoa ou Carnaval...

Sou um ser dos alegres

Que sorri até para o não!...

 

Os Azares de um homem de sorte

Valem pouco, nada são!...

 

Gil Saraiva

 

 

Livro de Poesia - Brumas da Memória: Posto de Escuta

Posto de escuta.jpg

"POSTO DE ESCUTA"

 

Posto de Escuta, escuta!

 

Escuta o velhinho de olhos doentes

Que num canto chora os filhos ausentes...

 

Escuta a senhora

Que casa não tem,

Como demora,

A resposta não vem...

 

Escuta o homem de voz dormente

Que quer ser ouvido permanentemente,

Alma magoada, trémula assim

De quem se vê só

Tão perto do fim!

 

Posto de Escuta

Escuta!

 

Escuta o pedido de uma cadeira,

De rodas, feita para a liberdade,

Porque faz sentido

Que alguém queira

Ter o direito à mobilidade!

 

Posto de Escuta

Escuta!

 

Escuta o taxista da grande Lisboa,

De histórias mil, Cais Sodré, Madragoa,

Que levou o homem, nu, o coitado,

A quem a amiga deixara pelado...

 

Oh… Posto de Escuta

Escuta!

 

Escuta os versos do cantar do Povo

Que em surdina gritam por um mundo novo...

Escuta as quadras de senhoras meigas,

De voz carente,

Gramáticas leigas,

Coração ardente,

Alma empenhada

Em tudo dar em troca de nada...

 

Posto de Escuta

Escuta!

 

Escuta a dor de quem foi tratado

Num hospital como um renegado...

 

Escuta o cego de recursos parcos

Pra quem a bengala chora na montra...

 

Escuta o coração

Que perdeu a filha

Cavalgando ao vento a última milha...

 

Posto de Escuta

Escuta!

 

Escuta a guitarra, que toca baixinho,

Acordes que o tempo não pode apagar...

 

Escuta o fado em voz de carinho

De quem nos recorda saudade e amar...

 

Escuta um país de alma ferida

De quem quer apenas o que é natural

Ou vozes alegres cantando a vida

E que em português gritam Portugal!

 

Posto de Escuta, escuta!

 

Escuta agora, ninguém ignora

Que no dia-a-dia tu és mais valia,

Sem julgar, bater, sem opor,

Almas de éter, quase um vapor...

Posto de Escuta, escuta!

 

Escuta um Povo que grava no cobre,

Em letras de ouro

A alma mais nobre!

 

Posto de Escuta, escuta!

 

Ó como é lindo o teu escutar

Na noite, no éter, sem um olhar,

Vozes de vida, formas de luta...

 

Escuta os casos da Troika viral,

Que dum memorando fez memorial

Ou vã lembrança de um país

Outrora chamado de Portugal...

 

Escuta o teu Povo que pede ao Governo

Que mude já ou se vá embora (e sem demora)

Que o desgoverno cria quem chora...

 

Posto de Escuta

Escuta!

 

Oh! Por favor não pares de escutar!

 

Escuta,

Posto de Escuta!...

Gil Saraiva

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