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Estro

Estro do meu ego guarda a minha poesia, sem preocupações de forma ou conteúdo, apenas narrativas do que me constitui...

Estro do meu ego guarda a minha poesia, sem preocupações de forma ou conteúdo, apenas narrativas do que me constitui...

Livro de Poesia - Ântumos Implexos dos Airados: Estilhaços de Cristal - II

Estilhaços de Cristal.jpg                          II

 

“ESTILHAÇOS DE CRISTAL”

 

Escuta, amor, o meu coração.

Não tinhas outra forma de despedida?

Sem fragmentos de cristal apunhalando,

Repetidamente, esta minha alma,

Agora sem rumo, tão perdida?

Olha, amor, olha, está vazando,

Ferido de morte, mal tem vida.

 

Falta-me espaço neste compartimento,

Do qual preciso para existir,

Para guardar tamanha dor.

Meu ego é como taça estilhaçada

Na parede do meu subsistir.

E é aqui, espalhados pela sala,

Que estilhaços de cristal me fazem sucumbir.

 

Poderias mesmo, num outro cenário,

Ter suavizado o nosso adeus.

Quebraste o bico ao canto do canário,

Na amargura de um silêncio,

Que se reflete nos estilhaços de cristal

Espelhando os nossos erros passados,

De forma desumana, desigual.

 

 O meu perdão te posso oferecer.

Ainda recordo o teu amor de menina,

Tantas vezes chamando por mim,

Como se eu fosse o despertar

Nessa tua aurora pura, cristalina,

Dos idos frescos de uma beira-mar

Onde te tornaste, deslumbrante, a minha sina.

 

Recordo igualmente de um ar de mãe

Como me tapavas e protegias.

Não te roubei o sangue,

Que jamais deveríamos ter partilhado,

Tornei-me nele porque tu querias.

Mas agora achas-me inútil e acabado.

Não tenho lugar nas tuas fantasias!

 

Porém, terminado o discurso de quem sonha,

Ainda vou gritar que te amo:

–– Eu amo-te, como eu te amo…

Como? Como um louco varrido, uma cegonha,

Que traz no bico a esperança de uma vida,

Que entre nós, os dois, pode crescer.

Será que o futuro estanca a ferida?

 

Ou queres que te ame como deusa?

Sim, eu te venero, sim, eu amo-te,

Como um homem que será o que quiseres,

–– Amor, eu te amo desmedidamente!

Como um cão que já foi fera, já foi lobo,

Como um bombeiro doido pelo fogo

Como um retardado que não mente!

 

Tu sabes que eu te amo assim.

Quero de novo ver os teus sorrisos,

Quero-me perder em teus segredos,

Na plena confiança de que em mim

Teu corpo perderá, de novo, os medos,

E eu me tornarei no guardião

Da nossa nova vida em comunhão.

 

A casa de pedra empedernida

Roubou-me a tua alma, minha amada,

Nessa nova morada eu não sou vida,

Sou fragmento de cristal de estilhaçada

Taça de Satanás, que queres longe.

Sou dança sem ritmo, sou monge

Em guerra com a paz e não sou nada!

 

Estilhaços de cristal, na madrugada,

Mas mesmo assim um vidro, que se funde em chama,

Entende, amor, entende este que te ama!

 

Gil Saraiva

 

 

 

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